Hoje eu decidi falar um pouco sobre a tal teoria que dá título ao blog, a da complexidade das coisas. Mas a verdade é que está complexo me concentrar em qualquer coisa hoje. Para não sair muito do assunto, vou apenas dizer que tem a ver com uma vizinha do prédio ao lado, um andar abaixo do meu. E pára por aqui porque não é Querido Diário.
O propósito da teoria da complexidade é, em termos simples, classificar a dificuldade de resolver os problemas de alguma forma que seja possível compará-los. Ou seja, dizer, com base em princípios teóricos, que um problema é mais difícil, ou mais complexo, que outro. Por exemplo, se você está na praia de sunga, no auge hormonal da adolescência, e passa aquela gostosa e você sente algo se mexendo nos países baixos, é complexo, mas ficar vendo essa danada da vizinha embaixo todo dia provocando, sem poder fazer nada, aí é foda. Ou, de fato, não é, e este é o problema. Os problemas, então, diferem nas suas complexidades intrínsecas e nos melhores métodos para resolve-los. Se você está numa festa animada, cheia de mulher, e louco pra agarrar alguém, pode recorrer a métodos conhecidos, um dos mais populares sendo tomar uma quantidade razoável de álcool para perder a vergonha e sair dando em cima de quantas puder, até alguma suficientemente desesperada aceitar te dar uns beijos. Mas como chamar para sair a filha do vizinho, que é evangélico ferrenho daqueles da Assembléia de Deus que não deixa a menina nem usar nada que não seja uma daquelas saias no tornozelo? Esse tipo de problema que não tem nenhuma solução satisfatória é chamado de intratável.
Ah, antes que me acusem de pedófilo, o que tornaria o problema ainda mais complexo, aviso logo que a dita cuja tem 19 anos. Algo assim, foi o que eu soube. E bem, a questão da saia e da roupa composta me lembra de outro fator de complexidade do problema: como eu disse, ela provoca. Daqui do meu quarto dá pra ver o banheiro dela, pelo menos uma parte, o chuveiro mesmo fica coberto pela parede. Mas a doida aparece de vez em quando só de toalha, e fica lá um tempo em um lugar onde eu posso ver, e eu tenho certeza que é de propósito porque ela sabe que eu estou olhando. Apenas a toalha branca e os negros cabelos cacheados, e eu aqui querendo me perder nesses cachos quando devia estar estudando.
Mas voltando. Alguns problemas simplesmente não podem ser resolvidos, pelo menos não computacionalmente. Esses são chamados de indecidíveis. Como, por exemplo... ah, peraí, o que é esse movimento ali? Ai meu deus, ela de toalha de novo. O que fazer com uma dessas tentadoras malignas do inferno, eu acho, é um problema indecidível. Putz, e agora ela sentou num banquinho e está fazendo as unhas. Muito complexo isso. Peraí que eu vou ali achar o binóculo. Não me esperem de volta tão cedo.
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quinta-feira, novembro 23, 2006
terça-feira, outubro 03, 2006
Um novo protocolo para compras e vendas
No mundo moderno o tempo é curto, e tempo é dinheiro, logo o dinheiro é curto. Precisamos agilizar todos os processos para evitar desperdícios de tempo. Um homem hoje chega numa loja e a coisa se desenrola mais ou menos assim: a vendedora fala
- Boa noite.
- Boa.
- Em que posso ajuda-lo?
- Você poderia pagar minha dívida com a companhia telefônica, mas isso não vem ao caso.
- É, não vem...
- Ah, você tem horas? Preciso saber se estou atrasado.
- São 16:42. Só isso mesmo?
- Não, não, tinha algo mais... que loja é essa mesmo? Eu estava aqui no corredor do shopping e pensei em entrar, mas esqueci o que queria comprar.
- Essa loja é...
- Ah sim! Lembrei. Você tem calcinhas de renda? É que eu preciso comprar um presente para minha namorada, e pensei em algo que poderia ser útil aos dois... ei, não pense besteiras, é só que eu adoro ve-la com calcinhas de renda.
- Sim, naturalmente. Por aqui, senhor.
É óbvio que precisamos melhorar este processo. Tanto tempo perdido, e você ainda tem que se justificar para a engraçadinha da vendedora. Pensando nisso, o Instituto NEWSPEAK de Pesquisa em Comunicações Inter-Pessoais encaminhou às autoridades relevantes uma proposta para padronizar o protocolo de comunicação entre compradores e vendedores, um protocolo que otimiza o tempo gasto nestas negociações e ainda preserva a privacidade entre as partes.
O protocolo é simples e será apresentado por meio de exemplos. Ao se encontrarem, o vendedor não fala nada. O comprador anuncia apenas aquilo que quer comprar. O vendedor encaminha-o até o produto ou a porta da loja, conforme o caso. Ou seja, o mesmo homem chega para a vendedora e diz
- Calcinhas de renda?
E tudo se resolve, por mais que a vendedora ache engraçadíssima a imagem do homem vestido com uma calcinha de renda. O vendedor terá uma cota de 10 palavras para usar em casos de extrema necessidade. Note que não é necessária a clássica pergunta "qual será a forma de pagamento?'' pois o protocolo prevê que o comprador deve simplesmente mostrar como pretende pagar, ao que o vendedor responde negativamente ou positivamente com a cabeça; o processo se repete até que seja encontrada uma forma de comum acordo ou o comprador se retirar sem levar o produto. A cota é importante não só para otimizar o processo, mas também para eliminar o uso da famosa lábia de vendedor, evitando que você vá comprar uma calcinha de renda e saia levando uma calcinha ornada com diamantes para dar de presente nas bodas de platina.
Isso resolve a maioria dos casos, mas algumas situações apresentam complicações cuja resolução ainda está em pesquisa. Por exemplo, profissionais do sexo e psicoterapeutas. Para os primeiros, além do desenvolvimento de um código que evite que o cliente diga coisas constrangedoras como "boquete?'' numa calçada pública, a cota de palavras traz dois outros problemas: primeiro, alguns clientes gostam que seu/sua acompanhante "fale sujo'' para esquentar a transação; segundo, ainda está em estudo se os gemidos, gritos, sussurros, oohs, aahs e oh-yeses do garoto ou garota de programa devem contar como palavras na cota. O problema dos terapeutas é parecido, já que alguns clientes gostam de ouvir opiniões ou conselhos; entretanto, o protocolo na sua forma atual já é totalmente compatível com psicanalistas freudianos.
Por último, vale mostrar que o protocolo para policiais e políticos é muito simples, embora um tanto invertido. O comprador deve apenas perguntar:
- Escrúpulos?
- Boa noite.
- Boa.
- Em que posso ajuda-lo?
- Você poderia pagar minha dívida com a companhia telefônica, mas isso não vem ao caso.
- É, não vem...
- Ah, você tem horas? Preciso saber se estou atrasado.
- São 16:42. Só isso mesmo?
- Não, não, tinha algo mais... que loja é essa mesmo? Eu estava aqui no corredor do shopping e pensei em entrar, mas esqueci o que queria comprar.
- Essa loja é...
- Ah sim! Lembrei. Você tem calcinhas de renda? É que eu preciso comprar um presente para minha namorada, e pensei em algo que poderia ser útil aos dois... ei, não pense besteiras, é só que eu adoro ve-la com calcinhas de renda.
- Sim, naturalmente. Por aqui, senhor.
É óbvio que precisamos melhorar este processo. Tanto tempo perdido, e você ainda tem que se justificar para a engraçadinha da vendedora. Pensando nisso, o Instituto NEWSPEAK de Pesquisa em Comunicações Inter-Pessoais encaminhou às autoridades relevantes uma proposta para padronizar o protocolo de comunicação entre compradores e vendedores, um protocolo que otimiza o tempo gasto nestas negociações e ainda preserva a privacidade entre as partes.
O protocolo é simples e será apresentado por meio de exemplos. Ao se encontrarem, o vendedor não fala nada. O comprador anuncia apenas aquilo que quer comprar. O vendedor encaminha-o até o produto ou a porta da loja, conforme o caso. Ou seja, o mesmo homem chega para a vendedora e diz
- Calcinhas de renda?
E tudo se resolve, por mais que a vendedora ache engraçadíssima a imagem do homem vestido com uma calcinha de renda. O vendedor terá uma cota de 10 palavras para usar em casos de extrema necessidade. Note que não é necessária a clássica pergunta "qual será a forma de pagamento?'' pois o protocolo prevê que o comprador deve simplesmente mostrar como pretende pagar, ao que o vendedor responde negativamente ou positivamente com a cabeça; o processo se repete até que seja encontrada uma forma de comum acordo ou o comprador se retirar sem levar o produto. A cota é importante não só para otimizar o processo, mas também para eliminar o uso da famosa lábia de vendedor, evitando que você vá comprar uma calcinha de renda e saia levando uma calcinha ornada com diamantes para dar de presente nas bodas de platina.
Isso resolve a maioria dos casos, mas algumas situações apresentam complicações cuja resolução ainda está em pesquisa. Por exemplo, profissionais do sexo e psicoterapeutas. Para os primeiros, além do desenvolvimento de um código que evite que o cliente diga coisas constrangedoras como "boquete?'' numa calçada pública, a cota de palavras traz dois outros problemas: primeiro, alguns clientes gostam que seu/sua acompanhante "fale sujo'' para esquentar a transação; segundo, ainda está em estudo se os gemidos, gritos, sussurros, oohs, aahs e oh-yeses do garoto ou garota de programa devem contar como palavras na cota. O problema dos terapeutas é parecido, já que alguns clientes gostam de ouvir opiniões ou conselhos; entretanto, o protocolo na sua forma atual já é totalmente compatível com psicanalistas freudianos.
Por último, vale mostrar que o protocolo para policiais e políticos é muito simples, embora um tanto invertido. O comprador deve apenas perguntar:
- Escrúpulos?
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